01 abril, 2004

Não leia esse post. Ele é longo demais, mau humorado demais, deprimente demais.

Antes de passar no vestibular eu morava na casa da minha mãe. Vivia muito feliz com uma mesada de R$20,00 por semana (ou seria semanada?) e esse dinheiro tinha que dar para meu almoço, transporte, lanche da escola e para o fim de semana. Tinha que dar não, era suficiente.
Aí eu entrei na faculdade, e não dava para viajar todos os dias: me mudei para São Paulo. Nessa época eu ainda não trabalhava: minha mãe me ajudava com uma certa quantia por mês (isso sim pode ser chamado de mesada), não era muito, menos até que um salário mínimo. E esse dinheiro servia para eu comer (e eu comia muito bem por sinal), para o transporte, para pagar as contas e ainda para viajar todo fim de semana pra casa da minha mãe. As contas iam muito bem, o dinheirto era suficiente, mas eu sempre pensava: se eu conseguisse um emprego de uns R$XXX,XX seria tão bom, além das contas pagas, eu poderia folgar um pouquinho, né?!
Aí, alguns meses depois eu me mudei outra vez. Comecei a trabalhar meio período, por aquele valor: mais do que três vezes a ajuda da minha mãe. Fiquei super feliz... Pagava as minhas contas direitinho, tinha os passes do trabalho, vale alimentação, passei a sair de vez em quando, a viajar menos, e ainda dava o dízimo (sim, os tão polêmicos 10% que vc entrega para Deus, para ajudar no sustento da igreja e tudo o mais)!
Mas chegou uma hora em que as contas estavam ficando difíceis. Eu morava num lugar onde tudo era relativamente mais caro, as contas eram maiores (mesmo com uma ajuda da minha mãe, maior do que aquela primeira mesada) e tudo o mais... Eu lembro de nessa época, pensar em como seria perfeito se eu tivesse um salário de R$XXX,XX + 1/2 R$XXX,XX. Cheguei até a pedir a Deus um emprego novo e tudo o mais pois isso seria mais que suficiente para eu pagar todas as minhas contas, ter uma graninha para gastar comigo e ainda guardar um pouco numa poupança.
Consegui outro emprego. E um belo dia reparei que já estava ganhando o que eu queria e que ainda assim não conseguia guardar um só centavo, que o diga continuar dando o dízimo. Nessa época me mudei de novo, de um quarto alugado para um apartamento dividido com a July. Pouco tempo depois, arrumei outro emprego.
Hoje ganho quase o dobro do que ganhava no último emprego (10 vezes mais a mesada que eu recebia quando mudei pra SP), acordo todos os dias 6h da manhã, durmo sempre em algum momento entre 0h e 2h (raramente mais do que 6h por noite), trabalho muito mais do que a minha capacidade permite, quase não vou à uma igreja por estar sempre cansada demais, quando aparece alguma balada interessante acabo não tendo pique para ir, quase não viajo pra casa da minha mãe, já deixei até de almoçar por falta de tempo, cheguei ao ponto de não me lembrar nem do trajeto que eu fiz para voltar pra casa nos últimos dias: minha memória só identifica o lugar onde eu estava (a faculdade, por exemplo) e daí ela pula para a hora em que eu acordo, no dia seguinte. E ainda assim, mal consigo controlar o meu cartão de crédito.
Aí eu passo no mural de estágios da faculdade e me sinto frustrada quando vejo uma proposta de meio período pela metade do que eu ganho e não aceitar por medo de não aguentar minhas contas. Meu sonho quando entrei na faculdade era trabalhar numa biblioteca infantil, hoje nem olho essas propostas pois elas costumam pagar pouco. Vejo meus colegas saírem, irem a programações da faculdade durante o dia, fazerem cursos, praticarem yoga, marcarem baladas, entregarem todos os trabalhos da faculdade e tudo isso ganhando até menos do que eu ganhava no meu primeiro emprego.
Enfim, quais eram mesmo os meus sonhos quando eu decidi minha profissão e vir pra São Paulo? Eles não pareciam custar tão caro. Com o tempo, parece que o preço das nossas necessidades básicas quadruplicam a cada segundo. Eu já disse isso antes, e agora dói mais dizer: quando eu era criança, e nem mesada ganhava, juntar 5 centavos para comprar uma bala na porta da escola me faziam a pentelha mais feliz do mundo... Hoje as balas custam caro demais.

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